Um poeta,
Carrega consigo,
Todo o sentimento,
E sofrimento,
Do mundo,
Que sofre graças ao homem,
E à humanidade,
Dupla imbatível,
Não em grandiosidade,
Mas em inferioridade,
À qualquer réles ser,
Qualquer réles ameba;
Dupla essa,
Muito, muito,
Amiga do grande Camaleão.
Um poeta consegue,
Em poucos,
Ou às vezes muitos, versos,
Dizer tudo o que o coração sente,
Tudo o que o sábio pensa,
E os lábios do tolo calam;
Criticar em seus versos,
Tudo o que os advogados divinos defendem,
E os sábios infernais criticam e acusam;
Traduzir em suas palavras,
O sentimento do mundo,
O sentimento de um mundo pobre,
Coitado e humilhado,
Maltrapilho e maltratado por suas próprias crias,
Crias essas que a ele destroem,
Para terem também as suas crias.
Se crescer,
Crescer muito,
Muito, muito e muito;
Consegue-se chegar a compositor,
Ou mesmo um músico,
Um compositor e cantor;
Que transmite em suas músicas,
Em sua voz realmente divina,
Esse mesmo sentimento,
Que o poeta apenas congela e mata,
Em sangrentas páginas de um livro.
O músico de fato,
Usa de seu faro,
Seu faro musical,
E sentimental;
Para se aprofundar nesses sentimentos,
E conseguir passá-los para o mais tolo,
O mais néscio de todos os homens,
Raça essa formada pelos mais néscios da natureza,
Mais apedeutas que qualquer ameba,
Causando assim de muito bom grado,
No grandessíssimo Camaleão.
Um grande músico,
Em seus versos e trovas,
Diz tudo aquilo,
Que o poeta iniciante sabe,
Mas não pensa,
Pensa mas não sabe;
Tudo aquilo,
Que um grande poeta,
Diz mas não pensa,
Pensa e sabe,
Mas cala definitivamente,
Palavra essa que devia ser proibida,
Passado deveria ser,
Branquinho nela,
Em todos os dicionários,
E todas a obras que a veneram,
Queimadas deveriam ser;
Porque nada,
Nada, nada mesmo,
É definitivo,
Nem mesmo a vida o é,
Ou em alguns casos, a morte;
Basta estar vivo para poder morrer,
E basta estar morto para enfim renascer;
Ao mesmo tempo em quem a pessoa mais viva,
De todo esse planeta Terra,
Pode ter seu dia de morte;
O mais morto,
O verdadeiro defunto,
O verdadeiro presunto defumado,
Pode ter seu dia de glória,
Seu dia de vida.
Esse músico,
Após grande sucessos,
Grandes obras até,
Se continuar a subir,
Crescer e subir,
Mais,
Sempre mais e mais;
Vai se tornar um filósofo.
Ao ser filósofo,
Se aprofundará muitíssimo mais nesse sentimento,
Aprofundar a ponto de ocultismo,
Ou melhor,
Profundismo;
E saberá,
Fazer aquilo que o poeta,
Ou mesmo o músico,
Não souberam,
Que é deixar esse sentimento,
Ainda mais amplo,
Ainda mais claro,
Ainda mais explícito em verdade,
Explicitar a verdade;
Despi-la de qualquer regulador,
Despi-la de qualquer tabu,
Despi-la de qualquer insana,
Roupa maléfica de fato,
Roupa realmente profana;
Seja essa roupa uma não-roupa,
Ou a mais conservadora e bela,
Roupa de grife;
Porém antiquarizadora,
Tabulizadora,
E fechalizadora.
Roupa essa,
Que torna a pessoa careta e quadrada,
Torna a pessoa careta ao quadrado;
Veste a pessoa com tabus,
Tabus contra tudo e todos,
Que a impedem de falar o que pensa,
A impedem de fazer o que pensa,
A impedem de ver e ouvir o que pensa;
E fecha a pessoa,
Em uma pequena caixa,
Caixa essa onde ela pode se afogar com as lágrimas,
Lágrimas e mágoas da humanidade,
Lágrimas e mágoas causadas pela humanidade;
Um pequeno mundo,
Um mundo alienado,
Fechado,
Retardado,
Tapado,
E completamente errado;
Roupa essa,
Vestida pela mídia,
Pela indústria cultural,
Perante uma cultura de massas,
Visando escravizar,
A todo e qualquer ser,
Insignificante,
E poderoso,
Poderoso a ponto de ser nada,
De ser ninguém;
Roupa essa,
Midializada,
E que o verdadeiro filósofo,
Consegue despir,
De si mesmo,
E daqueles que lêem suas obras,
Mas não apenas folheiam e manuseiam,
E sim lêem de fato.
Tornar-se filósofo,
É a conquista máxima,
De todo e qualquer ser vivente,
Que não seja na verdade um ser demente;
Deus criou a Terra,
E imediatamente se encantou,
Imediatamente se apaixonou,
E criou o homem,
Mesmo sabendo dos defeitos mil que tinha,
Apenas para que pudessem evoluir,
Apenas para que pudessem surgir poetas,
Depois músicos,
E por fim filósofos;
E pudessem esses filósofos,
Ensinar a esse deus,
Como filósofo também se tornar.